sábado, outubro 28

Actividade simbólica na infância

A actividade simbólica na criança, vulgarmente designada de fantasia ou imaginação, é frequentemente a porta de entrada e de saída da sua afectividade. Através das brincadeiras, a criança representa papéis, constrói situações e ensaia respostas que a vão ajudar no seu dia-a-dia.
Quando já existe algum grau de sofrimento psicológico, com manifestações psicopatológicas ou não, o mundo simbólico da criança assume o papel de mostrar os fantasmas que assolam a sua saúde mental. A fantasia representa, então, um espaço de libertação, de transformação dos objectos internos, sobretudo quando existe um ego auxiliar, que consegue compreender a fantasia, relacioná-la com o real e devolvê-la à criança num formato desintoxicado (como diria Bion, já transformado em elemento alpha). Num formato que seja para ela compreensível.
Frequentemente, quando o ego auxiliar não é capaz de cumprir esta função, de desintoxicação da fantasia, acontece a sua repetição, uma vez, e outra, e mais outra, até que a devolução ocorra e a ligação se faça na psique da criança.
Outras vezes, a fantasia repete-se, porque os papéis que estão a ser ensaiados na brincadeira ainda não foram suficientemente interiorizados. É o caso de uma menina de 5 anos, que durante uma hora, me coloca a correr atrás dela, enquanto ela salva uns animais fantoches. E depois, troca de papéis, sendo eu a salvadora dos animais e ela o animal feroz que corre atrás de mim, e mos tenta roubar e comer. Apesar desta fantasia dar azo a várias interpretações, penso que o mais importante, neste caso, é a interiorização de um sentimento de segurança (de um vinculo seguro), que não foi possível ser interiorizado na relação com os principais objectos de vinculação.
Resumindo, a possibilidade de saltitar nas brincadeiras entre concreto e imaginário permite o desenvolvimento da afectividade, quando existe um percurso normativo, e permite ainda a transformação dos fantasmas perturbadores, quando no percurso são encontrados alguns factores de risco que podem conduzir à psicopatologia. Movimentando-se entre real e imaginário, a criança percebe a aplicabilidade das competências desenvolvidas ao nível do faz-de-conta. Se não houver esta ligação, a criança pode-se perder em fantasias aterradoras, e perder o sentido de si e da realidade.
Para terminar, fica aqui um excerto do site cujo link coloquei em cima. Não deixem de o visitar.

O jogo simbólico é a representação corporal do imaginário, e apesar de nele
predominar a fantasia, a atividade psico-motora exercida acaba por prender a
criança à realidade. Na sua imaginação ela pode modificar sua vontade, usando o
"faz de conta", mas quando expressa corporalmente as atividades, ela precisa
respeitar a realidade concreta e as relações do mundo real. (...) No jogo simbólico a criança sofre modificações, à medida que vai progredindo em seu desenvolvimento rumo à intuição e à operação. E finalmente, numa tendência imitativa, a criança busca coerência com a realidade.