segunda-feira, agosto 28

A Magia do Sonho

Quando trabalhamos com crianças não conseguimos (nem elas nos deixam) não ser, nem que seja um pouco, contagiados com os seus sonhos.

Lembro-me que há um tempo atrás os sonhos eram maioritariamente constituidos pelos Pokemons, depois passaram a ser povoados pelo Homem-Aranha, seguiram-se as personagens dos Morangos com Açúcar (em que os D'zrt se destacaram como ninguém) e, presentemente, temos o fenómeno Floribella, com as suas flores, os seus corações, os principes, as princesas e as bruxas más, e o fenómeno Noddy, com o Sr. Lei, o Orelhas, a Ursa Teresa, o Mafarrico e o Sonso, e uma cidade cujo nome não poderia ser mais apelativo ao imaginário dos pequenotes, a Cidade dos Brinquedos.

Se há quem critique os movimentos de massas, e em especial os fenómenos que tiram partido do público infantil, eu penso que estes dois fenómenos estão a contribuir, em muito, para o desenvolvimento dos mais pequenos, sobretudo porque fertilizam o imaginário e alimentam a esperança que a vida também traz coisas boas. Fazem sonhar, ou por outras palavras, fazem-nos desejar coisas boas para a nossa vida, dão humanidade a cada um de nós, e ensinam-nos a dar valor à nossa existência.

Mas como as opiniões são como as barrigas, cada um tem a sua!, nem todos vêem estes fenómenos da mesma forma.

Há quem argumente que a Floribella é demasiado cor-de-rosa, o que pode dar às crianças a impressão que o mundo real é também assim, totalmente BOM.

Todos nós, incluindo os pais e os avós, crescemos com contos de fadas, que nos ensinavam, especialmente, que praticar o mal acabava sempre por não compensar e que o caminho do bem poderia ser doloroso, mas no fim tinha melhores resultados. Também os contos infantis são povoados por principes e princesas, fadas e bruxas, e não é por isso que todos nós crescemos com a ideia que o mundo ou é totalmente bom ou é totalmente mau. A visão da totalidade do objecto (ou seja, a internalização de um objecto com partes boas e partes más) prende-se, sobretudo, com o estilo relacional que nos é oferecido no nosso meio mais próximo, quando crianças e adolescentes, e não é um conto infantil que vai operar mudanças profundas no objecto internalizado. Pode cristalizar e reforçar este tipo de mecanismo de clivagem, quando o estilo relacional oferecido no meio próximo já proporcionava um funcionamento deste tipo, mas não torná-lo predominante no funcionamento psiquico da criança, não quando as trocas relacionais com os outros significativos premitiram a internalização de mecanismos mais flexíveis.

Outros dizem que a novela é demasiado infantil, devido ao género de piadas que utiliza e às situações, quase forçadas, que cria de pregar partidas e elaborar vinganças a essas partidas, com mais partidas. Mas se conseguem provocar uma bela gargalhada e dar lugar à boa disposição em miúdos e graúdos, porquê fechar os olhos a essa boa disposição? Porque é que havemos de achar que ver as noticias, e seguir com atenção as tragédias do nosso planeta, nos dá um ar sério e, logo, mais respeito perante os outros?

Eu digo sempre que sim à boa-disposição e ao sonho. Porque disfrutar de um produto que movimenta massas não nos tira a inteligência, nem o prestigio enquanto pessoas. Porque a seguir a um episódio da Floribella consigo deliciar-me à mesma com um quadro de Degas, ou outro tipo de arte dita para intelectuais. Porque participar na magia dos sonhos infantis é uma porta aberta para o imaginário das crianças. Logo, para as suas vivências. Logo, para a sua compreensão.

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