quarta-feira, agosto 30

A casa que faz nuvens tristes: notas sobre a depressão infantil


Hoje, em conversa com um menino de cinco anos, não pude deixar de pensar que a depressão é um estado de humor que não escolhe idades.

Como a maioria dos meninos da sua idade, empenhados em imprimir forma ao seu imaginário, este quis fazer um desenho comigo. O desenho consistia numa casinha pequenina (figura materna), uma árvore com laranjas (figura paterna) e uma flor. Todo o terreno era muito árido, excepto onde estava a flor, que tinha debaixo um tufo fofo de relva verde. A casa não tinha porta, nem janelas, só um puxador (como se toda a casa fosse a porta), um telhado e uma chaminé, da qual saía um fumo espesso, muito comprido, que chegava até ao céu. Quando questionado sobre a função daquele fumo todo, o menino respondeu-me "É uma casa de fazer nuvens tristes" e, imediatamente, fez nuvens e pingos de chuva a cair.

Se a aridez e a falta de colorido dos elementos do desenho (especialmente, árvore e casa) já nos indica uma falta de colorido interno, o facto da casa produzir na sua chaminé nuvens tristes, envia-nos a mensagem explícita de um lar com caracteriticas depressígenas.

Este desenho veio hoje confirmar algo que eu já havia pensado quando aprofundei a anamnese da criança e a estrutura familiar: uma familia com um luto mal resolvido, uma figura materna com episódios de depressão na sua história clinica (inclusivé, pós-parto) e uma criança com sentimentos internalizados de desvalorização enquanto objecto com qualidades para ser amado, sentimentos de inferioridade ("Sou menos que os outros, porque não sou amado") e sentimentos de culpa ("Sou mau, e por isso, mereço ser castigado e não ser amado"). A sintomatologia da criança: rebeldia em casa, desobediência aos pais e episódios de agressividade, em especial para com a figura materna. No resto dos contextos, inclusivé na escola, um comportamento exemplar, uma boa capacidade de aprendizagem, mas alguma dificuldade de integração no grupo de pares e alguma inibição excessiva.




A Depressão Infantil


A depressão na criança foi, durante muito tempo, desconhecida. A ideia da infância como um período tranquilo, protegido de todas as preocupações, conduziu a que, durante muito tempo, não se pusesse sequer em causa que durante a infância não poderia existir sofrimento psicológico.


Para além disto, a sintomatologia depressiva na criança é muito diferente da do adulto e dificilmente reconhecível, uma vez que pode tomar diversas formas. Normalmente, a depressão infantil resulta de uma perda, podendo esta perda ser real (por exemplo, a morte de um dos pais) ou simbólica (por exemplo, quando os pais estão fisicamente presentes, mas não o estão emocionalmente).


Também pode ocorrer que as adaptações psicológicas normais no desenvolvimento se tornem demasiado difíceis para a criança, constituindo-se não como uma causa, mas como um factor de risco para uma depressão. Se as etapas do desenvolvimento, por serem mais complicadas para a criança, podem dar lugar a reacções depressivas, a depressão, depois de instalada, constitui-se inevitavelmente como um entrave ao desenvolvimento intelectual, afectivo e mesmo físico da criança. (in http://pipocaecompanhia.blogs.sapo.pt)

Segundo o site http://www.clubedobebe.com.br, a depressão infantil pode ter a seguinte sintomatologia:


  • Dificuldade de se afastar da mãe
  • Angústia
  • Pessimismo
  • Irritabilidade, agressividade
  • Problemas de alimentação
  • Tronco arqueado
  • Incapacidade de sentir prazer
  • Apatia, isolamento social e desinteresse
  • Insónia ou sono excessivo que não satisfaz
  • Défice de atenção
  • Dores frequentes
  • Agitação excessiva
  • Baixa auto-estima e sentimento de inferioridade

Quanto mais nova é a criança, maior tendência tem para exprimir corporalmente a sua tristeza. Podem surgir perturbações psicossomáticas, tais como: dores sem uma explicação física para tal, dificuldades respiratórias, eczemas ou alergias da pele, infecções gerais, vómitos, tonturas, entre outras. No entanto, é sempre necessário eliminar a possibilidade de uma verdadeira doença física, o que não invalidará a possibilidade de existência de uma depressão, pois a criança poderá estar doente e também deprimida. A regressão é também um dos sintomas da depressão, presente sobretudo nas crianças mais novas. A criança adopta comportamentos que já havia ultrapassado e que são pouco adequados à sua idade, voltando a agarrar-se demasiado à mãe na presença de estranhos, falando de forma “abebezada”, voltando a fazer chichi na cama, ou voltando a ter brincadeiras que já não tinha e a utilizar brinquedos pelos quais já se havia desinteressado.

Quanto mais crescida é a criança mais a sua tristeza é exprimida através de comportamentos ou mesmo de palavras. As dificuldades escolares e de concentração, a falta de confiança em si própria, os sentimentos de inferioridade e o isolamento ocupam um lugar privilegiado na manifestação da angústia que vive. A perda de interesse e de prazer em actividades de que anteriormente gostava é outro sintoma de referência no quadro da depressão infantil. Poderá surgir um medo exagerado, intenso e duradouro de algo ou mesmo um medo generalizado, de que algo de mal poderá acontecer a qualquer momento. Este medo poderá ser, por exemplo, concentrado na escola, constituindo-se uma fobia escolar. Por outro lado, a criança deprimida pode adoptar comportamentos de instabilidade, passando de tarefa em tarefa sem conseguir manter a atenção, e de agressividade, através de atitudes provocatórias em relação às outras crianças e ao adulto. Os rituais poderão também surgir, adoptando actividades repetitivas e obsessivas.

Quando um dos pais está deprimido, é raro que a criança não sofra consequências. A depressão dos pais pode ser resultado de diversos factores, mas a que mais evidência tem é a depressão pós-parto da mãe. Esta depressão impede a mãe de cuidar e estimular o seu filho correctamente, está indisponível para estabelecer uma relação vinculativa com a criança. O seu estado impede-a de desempenhar correctamente o seu papel de mãe. Assim, a criança não consegue estabelecer os seus pontos de referência e os seus ritmos são perturbados, podendo instalar-se a angústia depressiva. Nestes casos, o tratamento da depressão na criança deve ser acompanhado pelo tratamento da depressão da mãe. ( in http://pipocaecompanhia.blogs.sapo.pt)



A relação de ajuda e o processo terapêutico


"...o reconhecimento precoce de um estado depressivo poderá ter profundos efeitos na futura evolução da doença" (in http://gballone.sites.uol.com.br/infantil/depinfantil.html)

O processo psicoterapêutico deve sempre encaminhar-se no sentido de ajudar a criança a perceber as suas qualidades enquanto objecto capaz de ser amado, ou seja, tem que haver uma reformulação do seu auto-conceito, que passa sempre por um reforço da sua auto-estima, sendo ambos ensaiados, e esperamos que fortalecidos, na relação com o psicoterapeuta.

Frequentemente, os sintomas apresentados pela criança operam algum grau de mudança na disponibilidade das figuras parentais, que quando pedem ajuda técnica, colocam dúvidas e questões sobre as suas atitudes. Por vezes, existem pais, que devido também a histórias relacionais ocas no que concerne a afectividade e o amor sentidos, depositam o filho ou filha ao técnico, esperando que este a cure, como se a sua indisponibilidade afectiva não tivesse qualquer consequência na criança.

Mas como quando trabalhamos com crianças, o nosso esforço deve passar também por criar as melhores condições ambientais possiveis (familires, escolares e comunitárias), o pedido de ajuda dos pais deve ser trabalhado como uma porta aberta para pensar as práticas educativas e o lugar que aquele filho ocupa na afectividade parental. Ou seja, o técnico é responsável por criar nos pais qualidades de vinculação a um filho que estará sempre longe do idealizado, mas que não é por isso que deixa de ter qualidades, assim como um estilo relacional pais-filho que opere mudanças no mecanismo tantas vezes frequente: idealização do objecto e culpabilização do próprio sujeito que apresenta os sintomas depressivos.

Em suma, o técnico deve sobressair no imaginário da criança como uma flor, com cor e vivacidade, capaz de aproveitar alguma coisa de bom, mesmo nos dias de muita chuva.

segunda-feira, agosto 28

A Magia do Sonho

Quando trabalhamos com crianças não conseguimos (nem elas nos deixam) não ser, nem que seja um pouco, contagiados com os seus sonhos.

Lembro-me que há um tempo atrás os sonhos eram maioritariamente constituidos pelos Pokemons, depois passaram a ser povoados pelo Homem-Aranha, seguiram-se as personagens dos Morangos com Açúcar (em que os D'zrt se destacaram como ninguém) e, presentemente, temos o fenómeno Floribella, com as suas flores, os seus corações, os principes, as princesas e as bruxas más, e o fenómeno Noddy, com o Sr. Lei, o Orelhas, a Ursa Teresa, o Mafarrico e o Sonso, e uma cidade cujo nome não poderia ser mais apelativo ao imaginário dos pequenotes, a Cidade dos Brinquedos.

Se há quem critique os movimentos de massas, e em especial os fenómenos que tiram partido do público infantil, eu penso que estes dois fenómenos estão a contribuir, em muito, para o desenvolvimento dos mais pequenos, sobretudo porque fertilizam o imaginário e alimentam a esperança que a vida também traz coisas boas. Fazem sonhar, ou por outras palavras, fazem-nos desejar coisas boas para a nossa vida, dão humanidade a cada um de nós, e ensinam-nos a dar valor à nossa existência.

Mas como as opiniões são como as barrigas, cada um tem a sua!, nem todos vêem estes fenómenos da mesma forma.

Há quem argumente que a Floribella é demasiado cor-de-rosa, o que pode dar às crianças a impressão que o mundo real é também assim, totalmente BOM.

Todos nós, incluindo os pais e os avós, crescemos com contos de fadas, que nos ensinavam, especialmente, que praticar o mal acabava sempre por não compensar e que o caminho do bem poderia ser doloroso, mas no fim tinha melhores resultados. Também os contos infantis são povoados por principes e princesas, fadas e bruxas, e não é por isso que todos nós crescemos com a ideia que o mundo ou é totalmente bom ou é totalmente mau. A visão da totalidade do objecto (ou seja, a internalização de um objecto com partes boas e partes más) prende-se, sobretudo, com o estilo relacional que nos é oferecido no nosso meio mais próximo, quando crianças e adolescentes, e não é um conto infantil que vai operar mudanças profundas no objecto internalizado. Pode cristalizar e reforçar este tipo de mecanismo de clivagem, quando o estilo relacional oferecido no meio próximo já proporcionava um funcionamento deste tipo, mas não torná-lo predominante no funcionamento psiquico da criança, não quando as trocas relacionais com os outros significativos premitiram a internalização de mecanismos mais flexíveis.

Outros dizem que a novela é demasiado infantil, devido ao género de piadas que utiliza e às situações, quase forçadas, que cria de pregar partidas e elaborar vinganças a essas partidas, com mais partidas. Mas se conseguem provocar uma bela gargalhada e dar lugar à boa disposição em miúdos e graúdos, porquê fechar os olhos a essa boa disposição? Porque é que havemos de achar que ver as noticias, e seguir com atenção as tragédias do nosso planeta, nos dá um ar sério e, logo, mais respeito perante os outros?

Eu digo sempre que sim à boa-disposição e ao sonho. Porque disfrutar de um produto que movimenta massas não nos tira a inteligência, nem o prestigio enquanto pessoas. Porque a seguir a um episódio da Floribella consigo deliciar-me à mesma com um quadro de Degas, ou outro tipo de arte dita para intelectuais. Porque participar na magia dos sonhos infantis é uma porta aberta para o imaginário das crianças. Logo, para as suas vivências. Logo, para a sua compreensão.

sexta-feira, agosto 25

Para começar

A infância é muitas vezes descrita como sinónimo de inocência, esperança, sonho, brincadeira. Na literatura, na televisão e nas conversas diárias, as crianças são sempre descritas como inocentes, como verdadeiras, mesmo quando a verdade que dizem magoa o outro. Há quem diga que as crianças são cruéis, mas logo de seguida há uma voz que abafa esta e que diz, não!... são inocentes.
Mas, actualmente, ser criança é mais do que a representação de inocência que todos nós ainda temos interiorizada. Ser criança é também ter que atingir objectivos, concretizar expectativas, compensar faltas de afecto de adultos tantas vezes sós. É ser ainda muito pouco para tanta coisa que o mundo oferece, é ter que esperar que os desejos dos adultos deixem de se superar aos seus, é ter que, muitas vezes, portar-se mal, desobedecer, ser agitada, ou tanta outra coisa que irrita o adulto, para conseguir um equilibrio interno que o meio envolvente não consegue propiciar. Ser criança é tantas vezes, às vezes, vezes de mais!, ser incompreendida, ser castrada na imaginação, ser povoada de fantasmas que arrasam a esperança no futuro... que arrasam a confiança em si mesma, a confiança no outro... que arrasam o amor.
Porque ser criança nem sempre é sinónimo de felicidade, e porque existe tanta infância humana inundada de dor e sofrimento, é bom que nos esforcemos por interpretar os sinais precoces de dor psiquica. Que nos esforcemos por interpretar as crianças, cada qual única, cada qual especial.